Frei Gilson em Barretos: a explosão da mística no coração do homem pós-moderno

Clux Balder By Clux Balder 7 Min Read
Pe. Jose Eduardo de Oliveira e Silva reflete sobre a experiência de Frei Gilson em Barretos e seu impacto espiritual no homem de hoje.

O show do Frei Gilson em Barretos não foi apenas mais um evento religioso, mas um daqueles fatos simbólicos que, quando lidos com atenção, revelam algo profundo sobre a alma de uma época. As multidões que se reuniram diante de um frade a cantar louvores não foram atraídas por estratégias de marketing, tampouco por programas pastorais fabricados em gabinetes. O que arrastou aquela massa foi algo mais primitivo e, ao mesmo tempo, mais elevado: a nostalgia do transcendente.

Vivemos na era pós-moderna, que se orgulha de ter demolido os grandes sistemas e de ter dissolvido as certezas herdadas; mas que, no processo, produziu uma humanidade desorientada, órfã de mistério, sedenta de um sentido que não encontra nos manuais de autoajuda nem nas promessas tecnológicas. É justamente essa sede que se manifesta em fenômenos como o de Barretos: uma irrupção da transcendência, um clarão que lembra ao homem que a vida não se esgota no aquém e que a religião, quando ousa ser aquilo que é, quando não se envergonha de Cristo, ainda é capaz de tocar as fibras mais profundas da alma.

Esse contraste se torna ainda mais gritante quando lembramos a resposta moderna, que durante décadas tentou reduzir a fé a esquemas de racionalidade controlada, a pastoral programada segundo parâmetros sociológicos, a liturgias domesticadas que coubessem no gosto dos planejadores. O século XX e suas ideologias ensinaram a Igreja, para o bem e para o mal, a cultivar a ilusão de que o homem moderno só aceitaria uma fé adaptada à sua razão calculadora. O resultado foi o empobrecimento de uma experiência religiosa que, ao querer ser “inteligente” aos olhos do mundo, perdeu contato com a seiva vital que brota do mistério.

Por isso Barretos foi um escândalo: enquanto teólogos discutem em congressos e grupos militantes — progressistas ou tradicionalistas — se debatem em círculos fechados, incapazes de tocar a vida concreta das pessoas, um frade com um microfone e um repertório de oração conseguiu o que eles há muito perderam: falar diretamente à alma popular. Não é difícil entender por que tanta gente se apressa em criticar ou desdenhar o acontecimento: porque ele desmascara, sem palavras, a irrelevância das elites eclesiásticas confinadas em suas bolhas.

Mas é preciso ver também a sombra. O mesmo fenômeno que revela a força intacta da transcendência mostra, por outro lado, o risco permanente de a fé se converter em consumo religioso. Numa sociedade líquida — como a chamou Bauman —, tudo se torna mercadoria, inclusive a espiritualidade. Se a evangelização de massa não se enraíza, ela corre o risco de ser apenas mais uma experiência efêmera no catálogo de emoções que o indivíduo acumula sem jamais transformar em vida. A multidão que canta e chora numa noite pode ser a mesma que, na manhã seguinte, retorna à sua rotina vazia, com uma vaga lembrança emocional mas sem nenhuma decisão de conversão.

Descubra com Pe. Jose Eduardo de Oliveira e Silva como a mística pode transformar o coração humano no contexto pós-moderno.
Descubra com Pe. Jose Eduardo de Oliveira e Silva como a mística pode transformar o coração humano no contexto pós-moderno.

Aqui está o grande perigo da sociedade pós-moderna: transformar até mesmo a religião em espetáculo, esvaziando o mistério e convertendo a experiência de Deus em mero produto de consumo ou, no máximo, em embriaguez religiosa.

Esse risco só pode ser vencido se a experiência de massa desembocar na vida ordinária da Igreja. Não basta o clarão; é preciso que ele ilumine um caminho. Não basta a emoção; é preciso que ela se torne virtude. E isso só acontece quando a multidão encontra um chão eclesiástico onde a fé se traduz em vida: a paróquia. 

É ali, na comunidade concreta, que o homem se converte de fato, que recebe os sacramentos, que aprende a rezar, que amadurece na prática das virtudes, que deixa de ser apenas um consumidor de espiritualidade para se tornar discípulo. A história do cristianismo mostra isso: São Francisco arrastava multidões, mas sua força estava em ter fundado uma forma concreta de vida; os movimentos populares que se inflamaram sem encontrar enraizamento eclesial acabaram em cismas ou desilusões. O que define a fecundidade de um carisma não é a explosão momentânea, mas a capacidade de se encarnar numa vida comunitária estável.

O fenômeno de Barretos, portanto, deve ser lido com um duplo olhar. De um lado, é a prova luminosa de que o coração humano não morreu para Deus, de que a sede de transcendência está viva e que a Igreja, quando ousa oferecer o mistério, é capaz de arrastar multidões. De outro lado, é um alerta de que a evangelização não pode se contentar em ser espetáculo, pois a mesma sociedade líquida que se emociona hoje consome outra emoção amanhã.

O desafio é transformar a explosão em processo, o evento em caminho, o show em discipulado. Se Frei Gilson — e os muitos que caminham nessa trilha — conseguirem que o clarão de uma noite leve homens e mulheres ao altar da paróquia, ao confessionário, à vida de oração e de serviço – e eu sei que eles bem o querem –, então teremos assistido não apenas a um fenômeno religioso, mas a um verdadeiro renascimento da fé. Se, ao contrário, tudo se dissolver em lembrança, o que restará será  mais uma prova de que, numa época líquida, até a fé corre o risco de evaporar.

Autor: Clux Balder

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