Vídeos com IA que “salvam” famosos mortos de suas tragédias reacendem debate ético no Brasil

Megan Calderby Por Megan Calderby 7 Min de leitura

Montagem com Marília Mendonça, Chorão, Ayrton Senna, Domingos Montagner e Paulo Gustavo circula nas redes e divide opiniões entre familiares e especialistas

Uma nova onda de vídeos criados com inteligência artificial voltou a colocar o entretenimento brasileiro no centro de uma discussão delicada, dessa vez envolvendo artistas que já morreram. A polêmica começou depois que o perfil Nerd Soul AI publicou uma montagem em que celebridades falecidas aparecem sendo “salvas” das circunstâncias que levaram às suas mortes, reacendendo o debate sobre até onde a tecnologia pode ir ao recriar figuras públicas que não estão mais vivas para autorizar ou recusar esse tipo de conteúdo.

Na produção, nomes como a cantora Marília Mendonça, o ator Domingos Montagner, o vocalista Chorão, o piloto Ayrton Senna e o humorista Paulo Gustavo surgem em cenas fictícias, escapando dos acidentes, doenças ou episódios que de fato tiraram suas vidas. O conteúdo circulou amplamente nas redes sociais e dividiu opiniões entre quem viu a iniciativa como uma forma de homenagem e quem considerou a montagem desrespeitosa com as famílias envolvidas.

A cena que mais gerou repercussão negativa

Entre todas as recriações, a que envolve Paulo Gustavo foi a que provocou maior desconforto entre os internautas. No vídeo, o humorista aparece recebendo uma máscara de proteção contra a covid-19, cena que parte do público interpretou como uma insinuação equivocada de que o ator não teria adotado medidas de prevenção durante a pandemia, doença que de fato causou sua morte, em 2021.

Procurado pela reportagem que originou a repercussão, Thales Bretas, viúvo de Paulo Gustavo, preferiu não comentar o vídeo. A mãe do humorista, Déa Lúcia, e a família de Silvio Santos, cujo nome também circulou associado a montagens do gênero, não se manifestaram publicamente sobre o caso até o momento.

Famílias divididas sobre o uso da tecnologia

O episódio não é isolado. Nos últimos anos, conteúdos criados por inteligência artificial passaram a recriar artistas já falecidos em contextos variados, como eventos esportivos, apresentações musicais e situações hipotéticas, o que tem dividido opiniões entre familiares, fãs e especialistas em tecnologia.

Para Cizinato Diniz, pai do cantor Gabriel Diniz, que morreu em um acidente aéreo em 2019, esse tipo de conteúdo pode até representar uma forma de preservar a memória do artista, desde que seja produzido com respeito. Segundo ele, o problema surge quando a tecnologia é usada para atacar ou desrespeitar a imagem de quem já morreu, e não para celebrar o legado que deixou.

O que diz a lei sobre recriar quem já morreu

Do ponto de vista jurídico, especialistas em direito digital explicam que, embora ainda não exista uma legislação brasileira específica sobre o uso de inteligência artificial para recriar pessoas falecidas, a imagem e a voz continuam protegidas pelos chamados direitos da personalidade mesmo após a morte. Na prática, isso significa que familiares podem recorrer à Justiça sempre que entenderem que houve uso indevido da identidade de alguém que já morreu.

A advogada Amanda Celli Cascaes explica que essa proteção tem fundamento tanto na Constituição Federal quanto no Código Civil brasileiro, mas ressalta que ainda existem lacunas importantes na legislação quando o assunto é conteúdo produzido especificamente por inteligência artificial. Segundo ela, o Projeto de Lei nº 2.338/2023, conhecido como Marco Legal da Inteligência Artificial e que segue em tramitação no Congresso, pode ajudar a preencher parte dessas brechas caso venha a ser aprovado, já que o texto prevê regras de transparência e responsabilização para o desenvolvimento e o uso da tecnologia no país.

Já a advogada Yasmin Arrighi chama atenção para um desafio jurídico específico desses casos: a impossibilidade de obter consentimento da pessoa retratada, já que ela não está mais viva para autorizar ou negar o uso de sua imagem. Esse vácuo legal tem levado boa parte das disputas sobre o tema a depender da interpretação de juízes caso a caso, considerando princípios gerais de proteção à honra e à memória de quem já morreu.

Riscos apontados por especialistas em inteligência artificial

Para além da discussão jurídica, especialistas em tecnologia alertam para riscos que vão além do desconforto emocional causado a familiares e fãs. O especialista em inteligência artificial Leonardo Soares afirma que o crescente realismo dessas ferramentas amplia o risco de desinformação, já que vídeos cada vez mais convincentes podem ser usados para aplicar golpes, manipular a opinião pública ou espalhar informações falsas atribuídas a pessoas que nunca as disseram.

O especialista reforça ainda que o impacto emocional sobre familiares e admiradores de artistas falecidos deve ser levado em conta sempre que esse tipo de conteúdo é produzido, já que a linha entre homenagem e exploração comercial ou humorística da imagem de alguém que morreu costuma ser tênue e nem sempre respeitada pelos criadores desses vídeos.

Um debate que deve continuar

A repercussão do caso reforça uma tendência que já vinha sendo observada no entretenimento brasileiro: o uso cada vez mais frequente de inteligência artificial para recriar vozes, rostos e até movimentos de artistas que já morreram, seja em clipes musicais, seja em conteúdos feitos especificamente para viralizar nas redes sociais. Enquanto o Marco Legal da Inteligência Artificial não é votado no Congresso, a fiscalização desse tipo de produção seguirá dependendo, principalmente, de ações judiciais movidas por familiares que se sentirem prejudicados.

Para especialistas ouvidos sobre o tema, o episódio envolvendo Marília Mendonça, Chorão, Ayrton Senna, Domingos Montagner e Paulo Gustavo deve funcionar como um novo alerta para plataformas de redes sociais e criadores de conteúdo, reforçando a necessidade de mais transparência sobre quando um vídeo foi gerado por inteligência artificial e mais cuidado com a memória de quem não pode mais se manifestar sobre o próprio legado.

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