Estudo do Observatório Lupa mostra aumento de 308% em conteúdos falsos gerados por IA, e a maioria explora imagem de pessoas conhecidas.
A quantidade de conteúdos falsos criados com inteligência artificial mais do que triplicou no Brasil entre 2024 e 2025, segundo o primeiro Panorama da Desinformação no Brasil, estudo do Observatório Lupa divulgado neste ano. O levantamento reacende uma dúvida cada vez mais comum entre quem consome conteúdo nas redes sociais: como saber se um vídeo de um famoso, um político ou até um desconhecido é real? A resposta passa por entender como essa tecnologia evoluiu tão rápido e por que famosos se tornaram alvo frequente desse tipo de manipulação.
O que mostra o levantamento sobre desinformação com IA
O estudo do Observatório Lupa analisou 617 conteúdos verificados pela agência em 2025 e os comparou aos 839 conteúdos checados em 2024. Nesse recorte, os casos envolvendo deepfakes e outras peças geradas por IA passaram de 39 ocorrências em 2024, o equivalente a 4,6% do total de checagens, para 159 em 2025, já 25% das verificações feitas pela equipe. Isso representa um salto de 120 casos em apenas um ano.
Segundo a pesquisa, o uso da tecnologia também mudou de perfil. Em 2024, a IA era empregada principalmente para golpes digitais, como vídeos falsos de famosos anunciando sites fraudulentos. Já em 2025, o uso passou a ter viés mais estratégico: quase 45% dos conteúdos identificados tinham caráter ideológico, contra 33% no ano anterior, o que mostra uma mudança de finalidade além da fraude financeira direta.
Outro dado relevante é que mais de três quartos dos conteúdos com IA verificados em 2025 exploravam a imagem ou a voz de pessoas conhecidas, principalmente lideranças políticas. O uso do WhatsApp para disseminar esse tipo de conteúdo caiu de quase 90% em 2024 para 46% em 2025, enquanto redes de vídeos curtos como Kwai e TikTok ganharam relevância nesse processo, ao lado de Instagram, Threads e X.
Por que os deepfakes ficaram mais difíceis de identificar
De acordo com reportagem publicada pela Fast Company Brasil, o número de deepfakes no mundo saltou de cerca de 500 mil em 2023 para aproximadamente 8 milhões em 2025, um crescimento explicado por avanços técnicos recentes. Os modelos atuais de geração de vídeo conseguem manter consistência temporal, ou seja, produzem movimento coerente e identidades estáveis de um quadro para o outro, o que elimina falhas antes usadas para identificar montagens, como tremores ao redor dos olhos e da mandíbula.
Ferramentas voltadas ao público comum também reduziram a barreira técnica quase a zero. Atualizações de modelos como o Sora 2, da OpenAI, e o Veo 3, do Google, permitem que qualquer pessoa descreva uma cena, deixe um modelo de linguagem escrever o roteiro e gere um vídeo pronto em poucos minutos, sem conhecimento técnico avançado. A reportagem aponta que a tendência para os próximos anos é o surgimento de deepfakes capazes de reagir em tempo real durante interações ao vivo.
Especialistas em segurança digital também têm discutido o tema em eventos do setor. Durante painel no Febraban Tech, o gerente do Centro de Excelência em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do Serpro, Carlos Rodrigo Fonseca Lima, afirmou que a maior visibilidade dos sistemas de IA tem aumentado as tentativas de fraude, o que exige combinar diferentes tecnologias de verificação, como reconhecimento facial, de voz e biometria digital.
O que o público pode fazer diante desse cenário
Diante desse crescimento, a orientação de especialistas em desinformação é desconfiar de vídeos com alto teor emocional ou que pareçam extraordinários demais, principalmente quando envolvem declarações atribuídas a famosos ou autoridades. Checar a fonte original da publicação e buscar confirmação em veículos de notícia reconhecidos continua sendo uma das formas mais eficazes de evitar a propagação de conteúdo falso.
Empresas de tecnologia e instituições financeiras também têm investido em sistemas de verificação biométrica para conter fraudes que usam essas técnicas, especialmente em transações e abertura de contas. Ainda assim, o ritmo de evolução da IA generativa segue rápido, o que torna praticamente impossível eliminar por completo o risco de manipulação nas redes sociais.
Para quem acompanha o universo dos famosos, o alerta serve como lembrete de que nem toda imagem ou áudio viral corresponde à realidade. À medida que essas ferramentas se popularizam, a checagem de informação deixa de ser tarefa exclusiva do jornalismo e passa a exigir atenção redobrada de qualquer pessoa que consome conteúdo nas redes todos os dias.
Fontes: Agência Brasil | Fast Company Brasil | Serpro